NÃO SOU SÓ EU, AFINAL
Segundo o Público de hoje, há mais quem se lembre que temos um sentido chamado "Gosto"
"José Bento dos Santos ensina "o sentido do gosto" no Instituto Superior Técnico, em Lisboa
(...) A primeira aula, em que José Bento dos Santos analisou as noções básicas do paladar - os cinco sentidos, o sentido do gosto, bom gosto e mau gosto, referências e padrões e o absoluto e o relativo -, terminou com as largas dezenas de alunos a cheirar e provar pão quente com manteiga, que foi feito num pequeno forno eléctrico durante a hora e meia que durou a lição. (...)O "O Sentido do Gosto", explicou o actual director do curso de Engenharia Civil, José Manuel Viegas, pretende "reanimar os programas de Humanidades" na escola. Sublinhou que "os prazeres da vida, entre eles o sentido do gosto, fazem parte das Humanidades(...)Os alunos inscritos no curso "O Sentido do Gosto" não serão sujeitos a avaliação final, havendo, no entanto, controlo das presenças. O que quer dizer que podem chumbar por faltas."
Falta de... Gosto?
Caeiro, também aqui, é o mestre. Este blogue é mantido por Possidónio Cachapa e todos os que acham por bem participar. A blogar desde 2003.
8 de março de 2003
ISTO É UMA PRAÇA
Enquanto se discute se este ou aquele autor deve ser obrigatório no ensino, ou se a matemática deve ser metida a golpes de porrete no alunos de letras, ninguém fala dos bróculos. Fui eu que me esqueci ou nunca ninguém na escola me ensinou a distinguir entre uma laranja da Baía e uma laranja dos químicos da Andaluzia? Ou porque é que a indicação "Pêssegos de Alcobaça" nos deve fazer suspirar? Ou que o peixe se deve apresentar firme, as guelras vermelhas (aqui já me começa a erudição a patinar debaixo dos pés), e que é mais barato na Praça que em qualquer Pingo Doce Acontinentado?
Vou meditar sobre isto, já de seguida, frente a um pão alentejano e a um queijo de ovelha.
Enquanto se discute se este ou aquele autor deve ser obrigatório no ensino, ou se a matemática deve ser metida a golpes de porrete no alunos de letras, ninguém fala dos bróculos. Fui eu que me esqueci ou nunca ninguém na escola me ensinou a distinguir entre uma laranja da Baía e uma laranja dos químicos da Andaluzia? Ou porque é que a indicação "Pêssegos de Alcobaça" nos deve fazer suspirar? Ou que o peixe se deve apresentar firme, as guelras vermelhas (aqui já me começa a erudição a patinar debaixo dos pés), e que é mais barato na Praça que em qualquer Pingo Doce Acontinentado?
Vou meditar sobre isto, já de seguida, frente a um pão alentejano e a um queijo de ovelha.
7 de março de 2003
A ESCOLA FELIZ
Ainda estou para perceber esta certeza enraizada que a escola tem de ser um local de sofrimento e chatice... Encarniçam-se os professores com a necessidade de dividir orações em cima dos Lusíadas. E vá-se lá dizer-lhes que nesse movimento uma das duas coisas se perderá (geralmente a compreensão do poema épico). Será só a mim que parece estranho que tanta gente se esteja a querer vingar dos padecimentos estudantis repetindo os comportamentos?
Onde é que eu já ouvi isto...?
Ainda estou para perceber esta certeza enraizada que a escola tem de ser um local de sofrimento e chatice... Encarniçam-se os professores com a necessidade de dividir orações em cima dos Lusíadas. E vá-se lá dizer-lhes que nesse movimento uma das duas coisas se perderá (geralmente a compreensão do poema épico). Será só a mim que parece estranho que tanta gente se esteja a querer vingar dos padecimentos estudantis repetindo os comportamentos?
Onde é que eu já ouvi isto...?
JA FUI E JA VOLTEI
A boa vontade das organizações a chocar contra a displicência das populações e imprensa regional. Como se todos os dias chovessem escritores em Braga. Quem diz Braga, diz a Guarda, ou Beja ou..., ou... O que está a faltar é a TVI fazer um bigBrother escritores, para os meninos e meninas deste país sonharem com o nome impresso. E cobrar-lhes chamadas de valor acrescentado para receberem sms da Florbela Espanca... Iam levar anos a descobrir que a senhora já se não lamenta no seu castelo de amargura. (suspiro!) É triste, prontosz!
A boa vontade das organizações a chocar contra a displicência das populações e imprensa regional. Como se todos os dias chovessem escritores em Braga. Quem diz Braga, diz a Guarda, ou Beja ou..., ou... O que está a faltar é a TVI fazer um bigBrother escritores, para os meninos e meninas deste país sonharem com o nome impresso. E cobrar-lhes chamadas de valor acrescentado para receberem sms da Florbela Espanca... Iam levar anos a descobrir que a senhora já se não lamenta no seu castelo de amargura. (suspiro!) É triste, prontosz!
5 de março de 2003
EDUCAÇÃO DE SOFIA
A pergunta é sempre a mesma, vinda dos meus formandos que são professores: "Como é que eu posso aplicar essas teorias com as quais concordo (falam da liberdade de cada aluno encontrar o Seu caminho; descobrir o seu potencial enquanto equilibra de forma harmoniosa as várias inteligências...) se eu tenho um programa para dar e meninos que têm de passar em exames feitos por quem acredita nos valores do dinheiro e da competição?". E que posso eu responder senão que o formador é apenas um facilitador entre os conteúdos e os formandos? Na verdade, enquanto a escola não for repensada de raíz o melhor dos professores é aquele que amortece o choque entre os conhecimentos ásperos (e frequentemente inúteis) e os alunos. Que preferiam estar lá fora a sentir a efémera vida.
A pergunta é sempre a mesma, vinda dos meus formandos que são professores: "Como é que eu posso aplicar essas teorias com as quais concordo (falam da liberdade de cada aluno encontrar o Seu caminho; descobrir o seu potencial enquanto equilibra de forma harmoniosa as várias inteligências...) se eu tenho um programa para dar e meninos que têm de passar em exames feitos por quem acredita nos valores do dinheiro e da competição?". E que posso eu responder senão que o formador é apenas um facilitador entre os conteúdos e os formandos? Na verdade, enquanto a escola não for repensada de raíz o melhor dos professores é aquele que amortece o choque entre os conhecimentos ásperos (e frequentemente inúteis) e os alunos. Que preferiam estar lá fora a sentir a efémera vida.
BLOGGING AROUND
O Zé Mário Silva já disse tudo quanto ao alastrar do fenómeno. É pior do que a Coca-Cola, entranha à primeira. Não faço ideia do que existe a nível nacional quanto mais internacional. Mas fico feliz por saber que há tanta gente a escrever o que lhe parece. Assim, sem compromissos. E mais uma vez me surpreendo com o poder escorregadio da net: agora que os censores e os papa-dinheiro já tinham a coisa controlada aparece mais este espaço de liberdade! É preciso ter azar.
Mas, ai daquele que julga que pode segurar o Homem para sempre...
O Zé Mário Silva já disse tudo quanto ao alastrar do fenómeno. É pior do que a Coca-Cola, entranha à primeira. Não faço ideia do que existe a nível nacional quanto mais internacional. Mas fico feliz por saber que há tanta gente a escrever o que lhe parece. Assim, sem compromissos. E mais uma vez me surpreendo com o poder escorregadio da net: agora que os censores e os papa-dinheiro já tinham a coisa controlada aparece mais este espaço de liberdade! É preciso ter azar.
Mas, ai daquele que julga que pode segurar o Homem para sempre...
BERTRANDO
Conheço poucos sítios onde me apeteça menos comprar livros do que na Bert. do Chiado. O critério de apresentação é mais que discutível: babilónico. Novidades misturam-se com coisas ressequidas, bom com mau, light com heavy. Os autores mais reputados são metidos ao pontapé no cantinho do fundo. Por isso, quem quiser um Vergílio Ferreira já sabem onde tem de cavar.
O cúmulo aconteceu no outro dia, que ficou para a História como O DIA DOS TELEFONES. Uma empregada aspirante a reformada estava ao telefone com uma amiga; em alto e bom som resolvia os seus problemas domésticos enquanto os clientes folheavam. o que era humano e até compreensível. O pior foi quando um cliente chegou ao pé dela e lhe perguntou se tinha alguma coisas sobre "estádios", sobretudo o Stade de France. Ela respondeu, seca, que não e que se houvesse seria para ali... (apontou para a secção de arquitectura). O senhor atreveu-se a dizer que lhe parecia ter sido ali que tinha visto um livro sobre o referido assunto. Ela fulminou-o com o olhar e avançou na sua direcção negando tal possibilidade. Quando voltou para a sua camarata, o homem levantou um livro e disse-lhe, pouco triunfalmente, ORA AQUI ESTÁ UM. Ela pareceu não acreditar, mas, depois de examinar o volume com olhos de águia, lá lhe concedeu que, de facto, era sobre estádios.
Na secção seguinte, outro empregado (este mais amável), também resolvia um problema doméstico que metia água ou luz, já não me lembro.
Só posso dar graças a deus por não ser sócio desta empresa... Livra!
Conheço poucos sítios onde me apeteça menos comprar livros do que na Bert. do Chiado. O critério de apresentação é mais que discutível: babilónico. Novidades misturam-se com coisas ressequidas, bom com mau, light com heavy. Os autores mais reputados são metidos ao pontapé no cantinho do fundo. Por isso, quem quiser um Vergílio Ferreira já sabem onde tem de cavar.
O cúmulo aconteceu no outro dia, que ficou para a História como O DIA DOS TELEFONES. Uma empregada aspirante a reformada estava ao telefone com uma amiga; em alto e bom som resolvia os seus problemas domésticos enquanto os clientes folheavam. o que era humano e até compreensível. O pior foi quando um cliente chegou ao pé dela e lhe perguntou se tinha alguma coisas sobre "estádios", sobretudo o Stade de France. Ela respondeu, seca, que não e que se houvesse seria para ali... (apontou para a secção de arquitectura). O senhor atreveu-se a dizer que lhe parecia ter sido ali que tinha visto um livro sobre o referido assunto. Ela fulminou-o com o olhar e avançou na sua direcção negando tal possibilidade. Quando voltou para a sua camarata, o homem levantou um livro e disse-lhe, pouco triunfalmente, ORA AQUI ESTÁ UM. Ela pareceu não acreditar, mas, depois de examinar o volume com olhos de águia, lá lhe concedeu que, de facto, era sobre estádios.
Na secção seguinte, outro empregado (este mais amável), também resolvia um problema doméstico que metia água ou luz, já não me lembro.
Só posso dar graças a deus por não ser sócio desta empresa... Livra!
TOLENTINO
Gosto do Tolentino Mendoça. Já sei, já sei, não se pode dizer que se gosta de pessoas vivas; que é melhor calar, que embaraça. Mas, ainda assim. É o único padre que eu conheço com quem nunca me apeteceria discutir religião. Gosto dele e da sua poesia. Da sua capacidade de síntese. Não me posso esquecer de uma vez no Salon de Paris em que vários dos nossos poetas nos entediaram a boa vontade com os seus discursos nutridos e chegou a vez do Tolentino. Disse uma ou duas frases e fez-se silêncio. Todos soubemos que não haveria mais nada a dizer.
Vou à estante à procura de um poema seu...
Pode ser este:
"UMA COISA A MENOS PARA ADORAR
Já vi matar um homem
é terrível a desolação que um corpo deixa
sobre a terra
uma coisa a menos para adorar
quando tudo se apaga
as paisagens descobrem-se irreconciliáveis
entendes por isso o meu pâncio
nessas noites em que volto sem razão nenhuma
a correr pelo pontão de madeira
onde um homem foi morto
arranco como os atletas ao som de um disparao seco
mas sou apenas alguém que de noite
grita pela casa
há quem diga
a vida é um pau de fósforo
escasso demais para o milagre do fogo
hoje estive tão triste"
E agora posso ir dormir.
Gosto do Tolentino Mendoça. Já sei, já sei, não se pode dizer que se gosta de pessoas vivas; que é melhor calar, que embaraça. Mas, ainda assim. É o único padre que eu conheço com quem nunca me apeteceria discutir religião. Gosto dele e da sua poesia. Da sua capacidade de síntese. Não me posso esquecer de uma vez no Salon de Paris em que vários dos nossos poetas nos entediaram a boa vontade com os seus discursos nutridos e chegou a vez do Tolentino. Disse uma ou duas frases e fez-se silêncio. Todos soubemos que não haveria mais nada a dizer.
Vou à estante à procura de um poema seu...
Pode ser este:
"UMA COISA A MENOS PARA ADORAR
Já vi matar um homem
é terrível a desolação que um corpo deixa
sobre a terra
uma coisa a menos para adorar
quando tudo se apaga
as paisagens descobrem-se irreconciliáveis
entendes por isso o meu pâncio
nessas noites em que volto sem razão nenhuma
a correr pelo pontão de madeira
onde um homem foi morto
arranco como os atletas ao som de um disparao seco
mas sou apenas alguém que de noite
grita pela casa
há quem diga
a vida é um pau de fósforo
escasso demais para o milagre do fogo
hoje estive tão triste"
E agora posso ir dormir.
4 de março de 2003
TRÓIA A CAVALO
Chega-se à Península de barco. Com sorte cruzamo-nos com os golfinhos, apadrinhados pelos nossos cientistas com o gentil nome de roazes (parece uma afecção do estômago, mas é mesmo nome). A vegetação acolhe-nos, natural e estranha para quem vem da cidade grande. Ainda não cheira a mar, que o óleo dos barcos não deixa, mas lá chegaremos.
Ao fundo as torres: os abortos setentistas que não dão sinal de se sumirem. Torraltas erguidas ao céu pela mão criminosa de quem achava que o progresso era para cima. Os mesmo que rumaram a sul e afogaram nas águas tépidas do Algarve a galinha que era de todos.
Há uma paz em Tróia que não se sabe de onde vem. Não há-de ser da cimenteira em frente, essa Palmela Adersen que estende os seios cinzentos ao rio... Nem dos veios abertos na serra da Arrábida, que não levarão mais de dois milhões de anos a recompor-se...
Há-de ser dos pássaros que insistem em esconder-se nos arbustos, ou dos movimentos dos moluscos que emergem da maré baixa.
Se tudo se concretizar conforme o conluio instituido (dar uma vista de olhos aqui ou aqui), os pássaros irão para longe e as únicas coisas moles serão as coxas das inglesas que irão engordar os bolsos dos nossos industriais. Mas a quem interessa o futuro, se existem placas para não pisar as dunas ao lado de vivendas novo-ricas que nascem, impúdicas, das mesmas?
Chega-se à Península de barco. Com sorte cruzamo-nos com os golfinhos, apadrinhados pelos nossos cientistas com o gentil nome de roazes (parece uma afecção do estômago, mas é mesmo nome). A vegetação acolhe-nos, natural e estranha para quem vem da cidade grande. Ainda não cheira a mar, que o óleo dos barcos não deixa, mas lá chegaremos.
Ao fundo as torres: os abortos setentistas que não dão sinal de se sumirem. Torraltas erguidas ao céu pela mão criminosa de quem achava que o progresso era para cima. Os mesmo que rumaram a sul e afogaram nas águas tépidas do Algarve a galinha que era de todos.
Há uma paz em Tróia que não se sabe de onde vem. Não há-de ser da cimenteira em frente, essa Palmela Adersen que estende os seios cinzentos ao rio... Nem dos veios abertos na serra da Arrábida, que não levarão mais de dois milhões de anos a recompor-se...
Há-de ser dos pássaros que insistem em esconder-se nos arbustos, ou dos movimentos dos moluscos que emergem da maré baixa.
Se tudo se concretizar conforme o conluio instituido (dar uma vista de olhos aqui ou aqui), os pássaros irão para longe e as únicas coisas moles serão as coxas das inglesas que irão engordar os bolsos dos nossos industriais. Mas a quem interessa o futuro, se existem placas para não pisar as dunas ao lado de vivendas novo-ricas que nascem, impúdicas, das mesmas?
NINGUEM LEVA A MAL
Está quase no fim. Os foliões colocam os chapéus de plástico no banco e preparam-se para se deprimirem outra vez. Os mais desatentos atiram-se à estrada e, no momento em que escrevo isto, alguns estarão a perder a vida e a tirar a de outros. Vi hoje alguns, a 180 km, os máximos ligados; estavam com pressa, para ver o jogo talvez... Alguns chegarão, outros, não.
Está quase no fim. Os foliões colocam os chapéus de plástico no banco e preparam-se para se deprimirem outra vez. Os mais desatentos atiram-se à estrada e, no momento em que escrevo isto, alguns estarão a perder a vida e a tirar a de outros. Vi hoje alguns, a 180 km, os máximos ligados; estavam com pressa, para ver o jogo talvez... Alguns chegarão, outros, não.
1 de março de 2003
TO BE OR JUST NOT
O que separa uma pessoa que quer ser actriz/actor de uma que "nasce assim"? Ou escritor. Ou pintor. Até onde o querer transporta o que não se manifestou como uma coisa natural? Cada dia que passa vejo mais pessoas a "estudarem para actores", entre outras áreas artísticas; a aprender a técnica. Acredito na honestidade de muitas delas; na capacidade de progredirem. Mas, a genialidade estará ao alcance do trabalho? Ou será apenas mais uma injustiça divina? Pergunto...
O que separa uma pessoa que quer ser actriz/actor de uma que "nasce assim"? Ou escritor. Ou pintor. Até onde o querer transporta o que não se manifestou como uma coisa natural? Cada dia que passa vejo mais pessoas a "estudarem para actores", entre outras áreas artísticas; a aprender a técnica. Acredito na honestidade de muitas delas; na capacidade de progredirem. Mas, a genialidade estará ao alcance do trabalho? Ou será apenas mais uma injustiça divina? Pergunto...
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